Interior do Estado do Amazonas. Mil novecentos e bunda. Havia dois corcundas. O Notre e o Dame. Cansados de passar os dias a fitar o chão diuturnamente, resolveram ir atrás de uma solução para os seus problemas. Aconselharam-se com o velho ancião, Erasmo de Jauató, e este lhes disse que poderiam encontrar, no interior da terra firme, três ogros (a figura do ogro só entra nessa história por estar na moda) capazes de torná-los efetivamente homos erectus. Mas tinham que ter cuidado para não contrariá-los, senão... Rfum!
A advertência foi recebida com atenção pelo Notre, cuja humildade lhe parecia pesar sobre as costas, se é que metaforizar sua condição física não é uma grande sacanagem. De qualquer forma não seria ele quem pudesse contrariar quem quer que seja. Já o Dame, apesar de sua, digamos, limitação estética, só queria saber de se livrar o mais rapidamente possível daquela corcunda, o que decerto aumentaria sua já inflacionada soberba. Mal deu atenção pras palavras finais do velho sábio e saiu correndo pro interior da mata virgem arrastando seu irmão (se é que eram irmãos, ouvi essa história há muito tempo) consigo.
Embrenharam-se na mata. Depois de um dia sem êxito em localizar os ogros, resolveram separar-se. Assim a possibilidade de encontrá-los seria bem maior. Decidiram que depois de dois dias se reencontrariam naquele local. Como fariam aquilo sem GPS não sei. Ah! É claro que levaram mantimentos e instrumentos para a temporada na terra firme, mas fica combinado que a partir de agora não vou entrar em maiores detalhes pra não tornar a história ainda mais longa.
Enfim, na noite do segundo dia a humildade do nosso amigo Notre foi contemplada com a visão dos três ogros, que em volta de uma fogueira, estavam a cantar:
"Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!"
Talvez tenha sido a primeira experiência de Notre com a música minimalista. De qualquer forma o corcunda não se fez de rogado, e sem julgar a qualidade melódica da música pôs-se a auxiliar os ogros na cantoria.
"Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!"
E assim cantaram, alegremente, até o raiar do sol. Foi quando os ogros, muito satisfeitos com a companhia daquele corcunda que os ajudou na cantoria, ofereceram seus préstimos ao nosso amigo Notre, tirando-lhe aquela corcunda, dando-lhe uma postura invejável...
Transbordando de contentamento, Notre saiu correndo ao encontro de seu (vá lá) irmão, conforme o combinado, para contar-lhe a boa nova. Os olhos de Dame brilharam assim que viram seu irmão na forma ereta. Notre lhe deu a localização exata de onde os ogros se reuniam, certamente na base do beicinho, e recomendou-lhe que não era necessário nada além de juntar-se aos ogros numa cantoria.
Pois bem. Na noite do terceiro dia o Dame encontrou os ogros, que já estavam em volta da fogueira a cantar:
"Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!"
Soberbo que só o Rei da Espanha, o Dame não conteve o riso diante daquela melodia que considerava fraquinha como "caldo de piaba coado no algodão", como costumava falar. Só não mandou um "por que non se calas" por falta de castelhano.
Mas, enfim, juntou-se aos três ogros na cantoria, sendo que ao final de cada:
"Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!"
Dame incrementava, entrosado que era:
"Quarta, quinta, seeeeeexta e sa-ba-dó também!
"Quarta, quinta, seeeeeexta e sa-ba-dó também!
Os ogros apenas se entreolharam. Contrariados, claro. O Dame em todo o seu pernosticismo continuava com aquele adendo à música, crente que estava abafando, como diz o caboco.
OGROS
"Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!
Domingo, segunda e teeeerça!"
DAME
"Quarta, quinta, seeeeeexta e sa-ba-dó também!
Quarta, quinta, seeeeeexta e sa-ba-dó também!"
O dia raiou e lá estava o Dame sorridente depois de uma noite de cantoria, iludido de que estava por vir a solução do seu problema, quando um dos ogros lhe dirigiu a palavra:
-- Mas você é um caboco muito pávulo, hein, Tiago de M..., quer dizer, Dame! Chega aqui pra resolver um problema sério, e ao invés da humildade exemplar do seu irmão (definitivamente agora são irmãos!) você veio logo mudando nossa música... Má rapá, com que direito? Agora você vai ver!!!
Os ogros o agarraram a força e deram um jeito de torná-lo ainda mais corcunda. 180 graus, maninho! E ainda cortaram-lhe o pinto para que não restasse a ele sequer o prazer da auto felação.