
Lembro quando o Márcio me apresentou a banda, uma de suas favoritas. Bons tempos de musical box. Bons tempos de descobertas musicais.
Na verdade, neófito que era, eu assistia nas vésperas das minhas idas à loja o programa "Lado B" da MTV, na época em que a TV por assinatura não era tão difundida. Ou seja, transmissão em UHF que mal e porcamente chegava na telinha de uma TV-Rádio, de pouquíssimas polegadas, mas a única em casa capaz de, vá lá, sintonizar a banda.
Não conseguia ler, portanto, os créditos que aparecem no início e final de cada clipe, e como meu inglês era paupérrimo e meu ouvido mal acostumado, quando o VJ (Fábio Massari) anunciou o nome da banda, entendi "Doctor Dream", logicamente pelo caráter onírico do som.
Voltanto à musical box, o Márcio foi capaz de decodificar aquilo que eu queria dizer. Doctor Dream não existia, então aquele som viajante, guitarras sussurrantes e a belíssima voz de uma vocalista loura, de olhos verdes e cabelos curtos só poderia ser do Cocteau Twins (a aproximidade fonética também deve ter auxiliado no desvendamento daquele breve mistério).
Três opções de compra surgiram na minha frente, e acabei optando pelo álbum que talvez tenha sido aquele recebido com menos entusiasmo pela crítica. Também, quem mandou ser produzido entre
Treasure e
Heaven Or Las Vegas?
Mas a crítica muitas vezes se manifeta por critérios não musicais, se atendo ao aspecto conceitual e não exatamente musical da obra. Até entendo, mas na relação banda-ouvinte isso é de somenos importância (somenos é foda, um pouquinho de auto imolação pra recuperar o fôlego). O que importa é a leitura pelos ouvidos.
Claro que me apaixonei por estes escoceses e acabei adquirindo toda a obra, e em cd! De carne, osso e acrílico! Me encantei pela obra como um todo, sem distinções. Mas Blue Bell Knoll sempre será emblemático para mim, por um motivo que se aloja nas minhas memórias mais remotas.
Quando era criança eu me perdia nas ondas do rádio, que pra mim era uma espécie de emanação do fantástico, princípalmente no clima da noite. E tenho certeza que nessas viagens auriculares, que incluía os intervalos comerciais,
Blue Bell Knoll manifestava-se em pelo menos três trilhas sonoras de comercial de motel. Se alguma dúvida persiste, pelo menos a música
Ella Megalast Burls Forever embalou o apelo comercial do Playboy Motel. Ah, embalou!
O clima do CD é sensual ao extremo. Esse paroxismo só encontra paralelo no
Treasure. As músicas sentidas provocaram em mim essa espécie de
deja vu.
Ou foi tudo um sonho?